Querida Tia, não pude deixar de reparar, que enviaste, uma vez mais, como costume é nesta época natalícia, onde os dias são mais pequenos e frios como tudo, um postal a desejar boas festas e bom ano novo, não fosses tu inteligente, usando o verdadeiro termo da palavra e, sorrateiramente, fugindo de ironias, e unisses as duas celebrações num só envelope. Já deves ter reparado, após acederes à tua caixa de correio, que, o teu sobrinho, nada mudou e, não sendo este ano excepção, te escreve votos de Bom Ano 2011 e desejos de saúde e empenho, via email, ora, por ser este um meio mais fácil e rápido de usufruir desta coisa das comunicações a quem se encontra distante, ora por ser este um meio gratuito em que o uso da carta e do selo lambido não acarretam custos por desnecessários. Seja como for, isso fica ao critério de cada interpretação e, como lá dizia o outro, como quem diz de quem não sabe quem disse o que foi dito, o que conta, é a intenção. Intencionalmente, então, e não dando mais voltas à reviravolta que varia até este preciso momento da minha comunicação indirecta, venho, por este solene meio, apresentar os meus votos de Bom Ano 2011 e desejos de saúde e empenho, como já antes ficou escrito que o faria, ora aqui fica feito, ninguém poderá revelar que não o fiz; a menos que seja alguém sorrateiro, mentiroso, ou, que, por uma questão de esquecimento, no caso de possuir muito trabalho entre mãos ou, quem sabe, desinteressado, alegue que este meu escrito de boa fé, de facto, nunca existiu. Assim sendo, de qualquer jeito, e pedindo perdão pelo já processual acto de minha divagação, são quatro os olhos que presenciam a revelada existência do dito, os meus, ao escrevê-lo, os teus, minha tia, lendo-o, tomando em consideração que nenhum de nós dois é vesgo, cego, ou, porventura, possuí uma pala num dos olhos, por puro divertimento natalício, mesmo sendo que nada tenha a haver uma coisa com ao outra, a pala, a meu ver, pertence aos piratas, e, o Pai Natal, que conheça das histórias que me contaram em pequeno, nunca sequestrou nenhum navio. Quer isto dizer, por outras palavras, quer isto dizer, pelas mesmas palavras, aquelas todas que surgem no dicionário, mas, isso sim, voltando ao busílis da questão, retornando ao porto de abrigo, e metendo os pontos nos is, que, do fundo do meu coração vos elejo, entenda-se, vos, à tia e relativa família próxima, vos elejo, como destinatários à minha expressa vontade de felicidade bastante e estabilidade demais, que não falte nunca a paz, o pão, habitação, saúde, educação, como bem expresso está nas letras de uma canção de Sérgio Godinho, cantor português que nasci a ouvir e que ainda oiço quando o tempo o permite, hoje, e de bom agrado, como sempre.
Saudações ternurentas, Otario Tevez.
Via WebMessenger 17-12-2010
(...) Otario Tevez diz: boas festas e saúde !!!!! Tia Linda diz: boas festas para ti também olha obrigado por aquele email Otario Tevez diz: ah Tia Linda diz: foi mesmo bom Otario Tevez diz: espero nao ter maçado muito haah ah fico contente então Tia Linda diz: nada, alegrou-me o dia BEIJOCAS A TODOS *
Sabe, o caro leitor, que dispensa do seu precioso tempo natalício, a fim de se encontrar a par de novidades recentes neste recanto quando, bem poderia, neste preciso momento, estar comendo umas castanhas ou, porventura, quem sabe, bebendo um licor junto de uma lareira aquecida, nesta altura em que, provavelmente, goza de uns escassos dias em casa, por ser esta, então pois, uma altura propícia para tirar umas férias e estar ao lado da família, sabe, o caro leitor, que dispensa do seu precioso tempo natalício, o que pensa esta espécime rara, que sou eu, de Mariah Carey?E aí se resume todo o meu demais espírito natalício.
Porém, contudo, todavia,portanto, logo, pois, como, mas, e, embora, porque, entretanto, nem, quando,
ora, que, porém, todavia, quer, contudo, seja, conforme, à medida que, apesar de, e a fim de que, Feliz Natal, exclusivamente para todos os ceguitos, com uma especial dedicatória aos pequenos ceguitos, coitaditos, que, para além de não conseguirem ler estas palavras de bom agrado meu, não podem ver toda a atenção que se lhes é dada neste período, às criancinhas em geral, não fosse este um período do ano dedicado aos pequerruchos fofinhos, consumismo e sal e gorduras em excesso, nosso Senhor Jesus Cristo amén, purpurinas e confettis, uma preocupação que me acompanha desde o início do meu mandato eu chamei a atenção dos políticos portugueses para as desigualdades sociais para a pobreza e para a exclusão
e lancei o roteiro da inclusão social manham manham bolo rei.
Estou para aqui a pensar na perplexidade das coisas, talvez usufruindo de mau grado o uso livre de meu tempo, que é, uma pessoa passa um período inicial da vida a construir um caminho, partilhando-o com outros prazeres secundários, e chega a uma idade em que a puta da consciência reclama o terreno! Esta pessoa então, outrora erradamente consciente de que o processo de acabamento da estrada ainda ia a moldes, quando já havia quem lhe construísse uma ponte por cima! U know what i mean? Que não damos valor às coisas até que elas se encontrem efectivamente terminadas. Nessa altura, a pessoa olha para trás e sussurra, como que para não ser ouvida por sábias aves de rapina, e testada pelo sentimento pessoal da vergonha que a pressiona: foda-se, podia ter feito melhor... . E nessa altura já a estrada 'tá atulhada de pássaros mortos estúpidos que se metem nos cabos de alta tensão e é nossa a merda que temos de limpar. Aqui eu pergunto, porque não se criam, antes, passeios, e se não fica na simplicidade das coisas... Comprendre? Comprends pas?
O desafio deste mês, da Fábrica de Letras, centra-se na demarcação de um objecto que guardamos religiosamente, alguém que amamos pelas mais variadas razões, um local que nunca esquecemos, seja numa viagem ou na infância, ou um acontecimento específico que nos tenha marcado. O Otário escolheu a 3ª temática.
Este é o corredor da designada Rua Sésamo, local destinado à compra de edições Tv Guia Editora, onde, na minha criancice, minha mãe gastava as suas posses monetárias, a fim de me adquirir as mais recentes obras do Poupas, do Ferrão, do Gualter e companhia.Em frente, havia acesso ao parque da cidade, onde, eu, guardo a recordação de meu rabo queimado na chapa do escorrega, num dia imenso de calor; estima-se, e resguarda-se para a posterioridade, a história da minha choradeira derivada, só possível de comprovar pelo testemunho de meu pai como única presença familiar na ocasião. A lado do parque, recorde-se o campo de futebol onde eu brinquei pela antiga escola Básica. Tal corredor, outrora repleto de gente, daria entrada às demais lojas variadas, das quais me relembro, a qual me já referi, a da senhora das costuras onde minha mãe me comprava meias e cuecas, a da senhora do pão onde minha mãe me comprava Bollycaos, a do casal velhinho que me oferecia rebuçados e onde minha mãe me comprava amêndoas, a do café matutino com a companhia de Dona de Putchie onde minha mãe me comprava um Mil-Folhas, a da senhora simpática vendedora de bugigangas onde minha mãe me comprava livros de histórias infantis, a da loja de berlindes onde minha mãe me comprava berlindes. Hoje, o corredor mantêm-se, porém, não há mais senhora da Rua Sésamo, nem senhora das costuras, nem senhora do pão, nem casal velhinho, nem café matutino, nem senhora simpática, nem loja de berlindes; já não gosto de usar cuecas, já não gosto de comer Bollycaos, já não aprecio rebuçados, já cá não reside a Dona de Putchie, já não leio histórias infantis, já não sei jogar ao berlinde. O parque já não tem o escorrega, o campo já tem balizas. As lojas deram lugar a escritórios, os cafés deram lugar a escritórios. Resta somente este corredor, para me relembrar, que, antigamente, aqui existiu movimento, e era aqui o centro de tudo.
Quando não tenho nada de fazer sento-me de frente à janela do meu quarto a mirar as pessoas nas varandas aqui de frente que me miram ao mirá-las, e as nossas vidas ficam ligadas por minutos; e eu olho pensando alto lá, aquele não estará a olhar para mim? e a outra pessoa mostra uma cara como se pensasse alto lá, aquele não estará a olhar para mim? e ambos sabemos que sim, mas ocupamos o nosso tempo a olhar-mo-nos para realmente remover a dúvida de que estamos a ser olhados. E a pessoa que passa pela rua e olha para nós a olhar uns para os outros fica com uma cara como que a pensar alto lá, aqueles não estarão a olhar para mim?. Não, não estamos senhora, você é que se colocou de frente à nossa perspectiva. E, de facto, você é bastante vaidosa, não será mesmo?
As velhas fazem de mim uma temporada perdida. É um facto quando me vêem depois de tanto tempo sem me verem. 'Ah 'tá tão crescido' 'Ah já tem barba e tudo 'tá um homem AhAh a última vez que o vi era deste tamanho ahhh!'. Já para não falar quando me surgem com a conversa que tenho os olhos da minha mãe. Os olhos são meus porra! Os olhos são meus! Para além de ser um caso perdido, há que ver que, primeiro, sou uma temporada perdida. Mas uma temporada de renome, porque muita gente quer saber os pormenores dos episódios perdidos. Gente que prefere ler a TvGuia em vez de acompanhar as novelas, gente que prefere não me acompanhar no percurso que faço, e saber os pormenores pela coscuvilhice. Eu sou uma série sem magia e sem talento, mas que, mesmo assim, vai cativando, aos poucos e poucos, por passar em horário nobre. Eu, sou, sem sombra de dúvida, uma temporada perdida.*