JG, O Mistério do Jogo das Paciências

--- Se o nosso cérebro fosse tão fácil de compreender - disse ele - seríamos, de qualquer modo, tão tolos que não o conseguiríamos compreender.
Fiquei a meditar bastante tempo sobre aquela frase. Por fim, cheguei à conclusão de que aquilo respondia quase cabalmente à minha pergunta.
O meu pai continuou:
--- Existem cérebros muito mais simples do que o nosso. Podemos compreender, até certo ponto, como funciona o cérebro da minhoca. Mas a própra minhoca não o consegue compreender, pois o cérebro dela é demasiado simples.
--- Pode ser que haja um Deus que nos compreenda - disse por meu turno.
O meu pai sobresaltou-se. Creio que se sentiu orgulhoso por eu ter colocado uma questão tão ajuizada.
--- Sim, é provável - disse ele. - Nesse caso, ele seria tão complicado que não seria capaz de se compreender a si próprio.
(...)
--- Se é que existe um deus - continuei, - ele sabe jogar às escondidas com as suas criaturas.
O meu pai partiu-se a rir, mas sei que ele concordava plenamente comigo.
--- Talvez ele tenha ficado chocado quando viu o que criou - disse o meu pai. - E deixou tudo atrás de si. Sabes uma coisa? Não é fácil saber quem ficou mais perplexo: se foi Adão ou o Mestre. Creio que um acto de criação desta envergadura deixa ambas as partes estupefactas. Mas admito que, ao menos, poderia ter assinado a obra de arte antes de desparecer.
--- Assinado?
--- Podia ter gravado o nome numa rocha ou numa coisa do género.
--- Não acreditas, então, em Deus?
--- Não foi isso que disse. O que acabo de dizer é que Deus está no céu a rir-se dos homens que não acreditam nele.
O meu pai continuou:
--- Mesmo que ele não tivesse deixado cartão-de-visita, deixou-nos o mundo. Acho que isso basta.
(...)
Ficou sentado a pensar. Depois prosseguiu:
--- Uma vez um astrounata e um neurogião russos discutiam sobre a fé cristã. O neurogião era cristão e o astronauta não era. O astronauta gabava-se: «Estive muitas vezes no espaço e nunca vi anjos.» O neurocirurgião ficou boquiaberto e respondeu: «E eu já operei muitos cérebros inteligentes, mas nunca vi um único pensamento
Agora foi a minha vez de ficar boquiaberto.

Comentários

amordemadrugada disse…
Olá lindão!
Tás bem? passei pra te deixar um jito na testa...lol
Fika bem
Anónimo disse…
Não te conheço de lado nenhum, vim parar ao teu blog por acaso, mas confesso-me já apaixonada por ti só por teres lido o Mistério do Jogo das Paciências... =) =)
Otário disse…
eu leio muito e faço muitas coisas,
é um livro fabuloso este, obrigado pela visita jovem!

Ho, que lindos textos, que poético, que lindo!