26/02/17

Puta que Pariu

(ou como fazer uma salada de agriões com esperma anão)

Quem me dera ser um carrapato
e chupar os teus ouvidinhos.
Era uma vez uma dificuldade que chegou à cozinha e pretendeu meter-se entre dois homens
que cheiravam a naftalina. Quando um deles se peidou, o outro peidou também.

 O último a tocar foi um jogador do Boavista cuja bola relançou no seu pé.
O Boavista 
O BOAVISTA
o último a relançar foi o 
boa
de vista

és boa de vista.
mas, quando rodas a tua anca e permaneces de perfil, o grau de beleza
de que usufruis diminui 75%. E ninguém bate pívias em 15% de beleza.

ROFL
reunião ordinária de felicidades legítimas.

13/01/17

Carta aberta ao pirilimpimpim

Carta aberta ao desconhecido

hoooo, que lindo! um título todo catita em tons rosa, dá-me vontade de pirilimpampar isto tudo!

Ora, muito bom dia. b'tarde. noite.
Soube de fonte próxima, de uma fonte que não molha nem demolha o bacalhau, que espécimes da raça humana ainda coscuvilham o meu blog. Vós gostais de coscuvilhar. Ora ficai sabendo que eu, queridíssimo autor, que não ponho cá as mãos nem os pés nem a pilinha que por vezes parece saltar naqueles momentos em que a urina é uma constante da vida tão concreta e definida e salta cá para fora como se fosse água proveniente de uma mangueira com alta pressão e desgovernada...

...perdi-me. Há que ter em atenção que eu não estou com atenção. O que queria ter referido acima é o seguinte: ora reparem que eu, autor idolatrado por minha mãe que me pariu há 25 anos numa salinha de um hospital que já não existe, tive extrema dificuldade em aceder à minha conta. Ora, caramba, já não me recordava dos dados de login e dos dedados de logout. Dos dedinhos de linguiça e das dentadas de lo..ler..lagosta. Lagosta. Sim, decorem esta palavra: Lagosta. Lagostim de Lagosta. Lagosta de Lagostim. Por vezes gostaria de ser uma circunferência para dar a volta ao desconhecido.

Nesta noite branca sou um boneco de neve.

Vocês, da arte patrimonial, não deviam andar na droga? No meu tempo andavam todos na droga. Era a droga da vida. Mas não, vocês perdem o tempo a perder tempo em fazer tempo para desgustar daqui. Ora, eu ficaria corado se corasse. Mas de qualquer modo fico grato pela presença de pessoas que estão presentes aqui e agora ou noutro sítio qualquer. E tenho uma questão: as pessoas com estudos em restauro gostam de puzzles? As pessoas com estudos no restauro conservam a sua vida por mais tempo e falecem idosas com furúnculos no traseiro? 

...
noite.

Agradeço a vossa leitura. 
Quase que foi um prazer.

01/01/17

O refúgio dos pelicanos.

Belisca-me a borbulha que carrego perto de meu ventre,
ali mais ou menos onde termina o meu peito e começa a minha pança.

Esventra-a até salpicar pus e, posteriormente, sangue e, posteriormente, nada:
somente continua para me provocares uma dor aguda das mais graves.

E, depois, quando todos os convidados tiverem ido embora e não houver mais 
ninguém na fila para a espremer, cospe-me para cima após o almoço.

Vomita-me para baixo depois do jantar.

Só aí, e não antes, saberei como é possível suportar o amor.

13/01/16

sim, fui eu que escrevi agora, obrigado

tenho em meu poder os pensamentos vãos,
memórias de olhares despidos, de dadas mãos,
moldam continuamente meu corpo e mente,
despertam-me para as eloquências vivas.
assim, patenteado pelo passado,
respiro por segundo com vagar
as coisas antigas que enalteço,
penso não merecer o castigo.

Mas em pernas erguidas resumo
o muito que blasfemo em solidão,
que poucos são aqueles que têm
um aperto daquelas mãos.

09/12/15

Proeminente rêgo

Olá,
sabes o que te traz aqui? 
qual o esforço da mulher que te deu à luz naquele quarto escuro?
conheces, filho, conheces a realidade?
quantos espermatozóides morreram para te tornares ser humano?
o teu nascimento tornou-te assassino. és um sociopata. nunca poderás assumir-te vegetariano porque és um sócioPata.

A tua mãe é cúmplice por te deixar nascer e deveria ser julgada e condenada 
ao lado de ex-drogados e pedófilos de adolescentes. Os pedófilos de adolescentes 
são aqueles mais maduros, que não se contentam com crianças. 
Os pedófilos de adolescentes não têm criança interior. Têm adolescente interior. 
Um pedófilo com complexo de inferioridade pode vir a abusar de anões se tiver problemas de visão.

E tu não conheces isto,
não sabes o que é viver na rua ao relento e morrer de fome quando se tem sede. toda a tua existência resume-se a um universo de ignorância, de ingenuidade, de cuidados paliativos. Vais viver mais um natal rodeado da família e de perus recheados com amêndoas e não te darás conta que és um assassino à nascença e de que estás a comer animais mortos. que nojo!

Vais entrar em 2016 fazendo a contagem decrescente anual como se fosses um expert em matemática. Quando, afinal de contas, toda a tua vida é triste e sentes-te sozinho. nem tens a mínima decência em cortar os pulsos na posição vertical. és um colosso verme, rapaz! A tua mãe não te disse? O teu pai não te contou? A tua avó não te informou que és um verme ranhoso, cuspindo-te saliva para a cara como fazem os velhos? 
Ninguém, te alertou para essa realidade?

Pois bem, querido, 
vais entrar num novo ano com esperanças e desejos não realizáveis e a tua bunda está cada vez mais gorda. Não te apercebes que à tua volta o mundo já te esqueceu e já não guardas aquele perfume da jovialidade que agradava as raparigas. Provavelmente só após abril te aperceberás que 2016 irá ser a mesma merda que todos os anos anteriores.

Mas Jingle Bells Jingle Bells e todoo catita a morfar pinhões.
És o rei do desperdício, estás no interior de um poço invertido de 27 metros onde todos te cagam para cima. Cagam-te relógios de pulso, ferrero rocher, alguns até te cagam a primeira prestação do pagamento da carta de condução! E ficas com a sensação de que o natal é giro quando, na verdade, estás a tornar-te mais saloio e pateta.

Que os proeminentes rêgos desfrutem de uma ótima época natalícia!!!!!!!

10/04/15

como responder a um serial-killer envenenado.

querida mãe,
hoje embriaguei-me de amor quando vi a vizinha do terceiro
esquerdo a subir as escadas de acesso ao prédio, à minha frente,
com suas varizes a revelar-se por baixo da saia azul.
Não pretendia dizer-te as coisas deste modo, mas acho que estou
a ficar apaixonado. Eu sei que ela é minha avó, e que também é tua
mãe, mas o amor não escolhe idades nem varizes, nem escolhe
vizinhas, mãe. Eu sei, eu sei, eu sei que já é altura de romper 
estas barreiras sociais, mãe, e aceitar de uma vez por todas este
nosso elemento no seio da nossa família, mas tu não queres mãe,
não aceitas o facto do teu avô ter copulado com uma preta, e ter
enfeitiçado a nossa família branca com meninos e meninas mulatas. 
Mas temos de a aceitar, ou como avó, ou como amante, ou como
cliente habitual da nossa sex shop para senhores e senhoras 
reumáticos da terceira idade. Não fiques ressentida, mãe, 
tu sabes que as senhoras mais velhas sempre me influenciaram
 a obter erecções, no fundo de ti sabes que é essa a razão que me 
fascina por te olhar no banho, quando finges que o sabão caiu e te
inclinas dessa maneira, sabendo que eu espreito pela fechadura.

querido filho,
é com orgulho que adquiro a informação de que sou fruto das 
tuas ejaculações. sempre te admirei e agradeço o facto de não
teres medo de partilhar estas informações comigo, mesmo que 
o tenhas feito de forma indirecta, deixando um envelope 
fechado em cima da minha cama onde eu e teu pai outrora
te concebemos, suicidando-te de seguida no cimo do cume.
de certo modo não compreendo esta obsessão em te escrever 
uma carta de resposta, estando tu morto numa vala comum
porque te portaste mal a semana passada e não comeste os
cereais todos. devias ter aprendido que há meninos em África
que não têm de comer e, por respeito, poderias bem ter morfado
aquela terceira taça de chocapic que te iria proporcionar o triplo
da energia necessária para conseguires ultrapassar os sucessos
escolares dos teus colegas de turma. malvado! 

em pranto, a senhora sua mãe, sempre apontada como 
sendo original, suicidou-se vendo uma maratona de 
novelas da TVI e, ao fim de duas semanas de intensa
programação, sofreu uma hemorragia cerebral. 
seu marido só regressou a casa um mês após o 
acontecimento, porque seguia uma vida paralela e 
discreta com a vizinha do terceiro esquerdo.
refez a sua vida, normalmente, apreciando as
varizes da velha e ficou tudo em família.

07/04/15

Pataniscas de experiências

Abri a farinha em estanca e coloquei no meio o fermento, meu amor estava comigo nesse preciso momento. Eu aproveitei a ocasião para lhe transmitir uma certeza e disse-lhe:
- Você é meu coração, você é minha beleza!
Seu olhar me penetrou pelos canais de recepção oculares no momento de intercruzamento de nossas íris. E de repente era sangue, vísceras, e seu corpo inconsciente. Estendi a massa em forma de rectângulo, com meu rolling pin, e no meio coloquei o coração de minha amada. Dobrei a parte esquerda da massa, dobrei a parte direita da massa, como que embrulhando o coração para o Natal. 
Querida, nunca pensaste que eu fosse tão literal: você é meu coração.

Dei duas voltas simples e uma volta em livro, untei um tabuleiro com manteiga. Cortei bocados de massa e formei umas bolinhas, fiz uns pãezinhos da casa que estavam bem quentinhos. Tu só jazias defunta, sempre me acusando, com esses olhos de morta a meu pão mirando. Hoje sinto-me bem, estou orgulhoso de mim. Já há muito tempo que não me sentia assim: no estômago, no intestino delgado, o melhor bolo alimentar formado. Tenho o teu coração nas mãos, tenho o teu coração neste pão. 
Ho querida! Minha inspiração! Minha fonte de vitamina B12!

Contigo todos os momentos são pataniscas de experiências!

21/07/14

engarrafar sensações.

tomado o remédio da liberdade concedida, as ações decorrem em dilúvio de vontades. 
quem somos nós quando queremos ser outra coisa?

hoje sinto-me bem, quis apanhar a brisa da manhã e voar com ela e,
 então, fugi do meu lado depressivo, corri o mais que pude com o 
intuito de me afastar do negativismo, e tomei uma pequena dose de 
alegria. em estímulo directo, condicionei-me a espasmos e saltos 
quase orgásmicos de excitação convulsa - da próxima vez, não me 
esquecerei, lerei atentamente as contra-indicações. mas agora não 
me interessa, já me perdi no meu mundo de fantasia em que sou 
uma abóbora de dia das bruxas e tenho em mim mais que um 
sorriso diabólico, tenho em mim a necessidade obscura de ser uma 
abóbora com intuitos diabólicos em se tornar um humano diabólico 
colecionador de abóboras com sorrisos diabólicos.


a prateleira velha, descascada em lascas disformes, não é uma 
laranja. e a minha vontade hoje não se pactua com a alucinação, ou
teria eu escolhido pegar noutra garrafa. serão as contra-indicações 
indicadas a pessoas contraditórias? esta alegria em estado de júbilo 
constantemente crescente concede-me as demais ilusórias 
perspectivas, já cresci à altura dos meus sonhos. a relação com
o meu sono já foi mantida há muitos relógios atrás, aglomerar 
segundos novos é o melhor modo de romper um relacionamento!
adeus sono, adeus clausura nocturna de colchão/rede de mantas que
me apanham navegando na realidade, adeus ponteiros/carrosséis de 
compromissos que me comprimem! sou uma cebola em camadas de espontaneidade!


tomado o remédio da liberdade concedida, as ações decorrem em dilúvio de vontades. 
quem somos nós quando queremos ser outra coisa?

quero água, água, água, ai a sede de rodar em furacões! não há 
outro modo de domesticar as pressões citadinas que me consomem 
senão assim: inconsciencializar as energias. não há outro modo de
 fugir às tenazes das rotinas senão este: impossibilitar o pensamento.
 largo-me em lagarta no casulo e evoluo em borboletar-me euforicamente 
pelas ruas, pelas pontes, pela calçada descalçada de passeio. pés
 com calos que não calam a calçada e feridas em metamorfoses!
os meus saltos, na verdade, são silêncios. o meu sorriso, na verdade,
 causa-me vertigens. sou muito pequenino para as minhas loucuras
 grandes. mas dou-lhes a mão, e deixo-as levarem-me ao escorrega
 das ruínas, onde elaboro lembranças que cuidam de mim como
 pensos rápidos. são o meu Betadine para os sentimentos não correspondidos. 
deixando-me estar assim, inesperado, transpirado, maltratado. 
quem somos nós quando queremos ser outra coisa...

somos aquilo que acontece.

15/07/14

Arremessos de sono ao teclado.

Arrotei.
Depois pedi perdão, mas ninguém estava lá.
Ao levantar-me da mesa da cozinha, a cadeira velha chia mais alto 
ao sabor da solidão, como que gritando por ajuda,
como que gritando por conhecer outras pessoas,
como que expressando fúria em sentir sempre o mesmo cu,
sempre o mesmo cu pesado em cima de si.

e então, tomando essa atenção, respondo em desconsideração:

excelentíssima cadeira de mesa, que me acompanhas da entrada à sobremesa,
e, em momentos mais tardios, me acompanhas na ceia, depois da uma e meia,
venho, por este meio agradecer-te, por teres a amabilidade de suportar o peso
do meu corpo cada vez mais molesto e glutão, és a minha única companhia.

contudo, como de momento estás gritando e gritando,
eu tenho em minha posse um martelo para te calar:
o ser humano tem este poder sobre as cadeiras,
torná-las em materiais de madeira descompostos.

é como desmembrar um inimigo.
mas sem me tornar um sociopata. 

07/07/14

o ruído em dias mornos.

mesmo antes de me teres perguntado se eu estava bem, eu estava bem.
tínhamos a melancolia da tarde fria, o paralelo estado capaz de nos unir mesmo em silêncio, 
e tu estavas bonita, mas não era por isso que eu estava bem. 

a parede de conchas de praia desaguava em mim memórias de outro espaço, desenvolvia em mim a capacidade de me sentir bem numa casa onde outrora fui feliz. mas tu não entendeste o brotar das sensações, não compreendeste e saíste magoada quando, na minha sinceridade, te referi sentir-me em paz. para ti, pensamentos de fuga à nossa relação eram uma promiscuidade. a parede de conchas, o estado capaz de reflexão e o sentimento de proteção que exercias em mim corresponderam a uma percepção de enquadramento de sensações. diante de ti, enamorados, perguntaste se eu estava bem. eu respondi que a calma, a paz, o sossego e a alegria interior que me contaminam em momentos em que os segundos não passam, me transportavam para outra casa, sem realce de saudade do passado, sem sentido de oportunidade em recordar outras mãos que me afagaram. agitada, não procurando compreender a sensibilidade de estados naturais, pactuaste com a insensibilidade da materialidade. alimentaste uma dúvida degenerativa, mencionaste sentir-me melhor nos braços de outra pessoa. e contaminaste o alegre silêncio que nos unia. ao abotoares as tuas razões em teu peito, criavas distância a meu lado. o ciúme, a falta de coragem, a incompreensão e incapacidade para uma conversa entre pares, aliciavam-te à solidão. teus olhos, fugindo dos meus, não me magoavam nem me abatiam, mas colocavam-me uma questão: irás morrer em flor nestes momento inférteis? na ausência em me procurares, na incapacidade de ligação, não te perdes e não te encontras. 

eu já não estava bem.

30/06/14

and now for something completely different.

Sentia-se tão em baixo 
que acabou por lhe fazer um boquete.
Os problemas de linguagem por vezes são constrangedores,
e o rapaz nem se apercebeu que a estava a violar, tão ingênuo.

Na estação, um comboio parara e o guincho agudo fez-se ouvir por todo o vilarejo.
Como se nada fosse, como se nada importasse naquela noite estrelada, mas em parte sombria.
Passou um cão e fez-se ouvir,
ão ão.
E os latidos, em banda sonora de profunda intensidade bocal 
feminina, marcaram, para sempre, a lembrança da pobre menina.
A noite, por maior que fosse, não iria ajudá-la.

Sentiria, ele, remorsos, um dia mais tarde?
Eram questões que perduravam no tempo.
Não havia alento para a menina, não. Tanto que ao fim de 2 anos se suicidou.
E deus, por maior que fosse, não iria salvá-la.

Resultante em cadáver, os agora vestígios de carne putrefacta eram comidos por lagartos e bichos feios que, ao vê-los em vida, a fariam exclamar argh c'a nojo!. Não é ódio nem vingança, os bichos somente a comem porque se encontram famintos. É o ciclo da vida e a ordem natural das coisas. 
Mas e ele, que era feito do desviado membro do sexo masculino?
Terá ele partido para Banshee e, na qualidade de xerife, fodido todas as loiras da cidade?
Ou terá ele sofrido pela morte das futuras namoradas em acções irremediáveis de Walter White?
Mas a vida não é uma série de televisão. 
E infelizmente nem todos os culpados sofrem a devida pena.
Tomara que ele tivesse uma melga a chateá-lo todas as noites até ao fim dos seus dias.
E que cada cão que o visse, lhe ferrasse uma dentada na perna.

|em colaboração com Lita|

23/06/14

O abate da floresta de corações.

Roubava o nariz da avó, repuxando-o com o dedo indicador e o polegar entrecruzados no seu punho fechado, e dizia vovó, roubei seu nariz!. E todo ele, com 5 anos de alegrias inflacionadas ao sabor de caramelos, transpirava de felicidade ao sugerir ter roubado o nariz da velha. Perto, ao vislumbrar as graças do miúdo, o pedófilo tirava macacos do nariz. O amor é muito isto, roubamos segundos aos amados como narizes a idosas, e nem nos apercebemos que à nossa volta pode estar um vagabundo que no nos vai estuprar na noite fria.

O amor é a chama do pirômano mais virtuoso! 

17/06/14

entardecer metamórfico.

sentado perto do tanque dos patos, no jardim da Gulbenkian, 
ouço passos a vir na minha direção acompanhados de uma voz:
- HO ZÉ!
e eu tenho várias incertezas na vida, mas sei que não me chamo zé,
 sei que o meu nome possui mais que duas letras. e eu só quero estar sozinho, neste momento de introspeção, enquanto fumo um cigarro e miro o cu de algumas pretas que passam por aqui. enquanto, perdido no oceano de nicotina, acompanho o leve circular dos patos e penso foda-se, que animais harmoniosos! - ao mesmo tempo em que ganho uma vontade cada vez mais elevada em os degolar, esses animaizinhos estúpidos que parecem ter uma vida tão mais fácil do que a minha, mas ao mesmo tempo tão frágeis e acessivelmente comestíveis junto de batatas assadas.
a voz continua audível, a chamar pelo zé, pelo zé, pelo zé, em 
pequenos intervalos ela chama com entusiasmo o zé, e as minhas feições faciais sofrem uma mudança radical cada vez que a sinto mais audível, cada vez que pressinto aqueles passos mais perto de mim, e eu só quero estar sozinho, neste momento de introspeção, enquanto fumo um cigarro e miro o cu de algumas pretas que passam por aqui. a influência que esta voz começa a ter em mim é intensa, acompanha-me em cada pensamento de nostalgia, já nem consigo imaginar o degolar dos patos sem ter alguém a chamar pelo zé, o zé está em todos os meus pensamentos, o zé está no meu quarto enquanto me imagino na cama com aquela preta que passou há pouco. e isso não é nada harmonioso. e eu não me chamo zé, sei que não sou o zé e sei que sou uma série de não-coisas, sei que sou mais não-coisas do que sou coisas, sou um inúmero leque de não-nomes próprios, não-nomes comuns e não-nomes colectivos. 
sentado perto do tanque dos patos, no jardim da Gulbenkian,
levanto-me calmamente, como se a minha vida dependesse de me deslocar vagarosamente neste momento específico, mas a verdade é que não me apetece fazer merda nenhuma e já não tenho entusiasmo para pular de assentos públicos. tal como o meu cigarro, o tempo que dispunha para permanecer aqui terminou, os patos já esbanjam harmonia em demasia para mim neste dia, eu continuo a não ser o zé, e a realidade é-me uma mãe furiosa por lhe ter roubado dinheiro da carteira e só a sinto dar chapadas na minha cara. 
chapadas metafóricas, nem por isso doem menos.