05/10/11

Divagações 16: Preto a beber vinho branco

|depois de ler isto|
e depois, há aqueles dias diferentes em que acordamos a pensar que os dias vão ser todos iguais. saímos da cama a correr, como ontem e, se tudo correr bem, amanhã, e depois de amanhã, e depois depois de amanhã, e depois depois depois de amanhã, e vestimo-nos a correr e lavamo-nos a correr, comemos a correr, calçamo-nos a correr, metemos um perfume barato a correr porque não temos tempo para pensar se cheiramos mal, metemos a mala ao ombro a correr e vamos a correr para o comboio porque ele nunca espera pelas pessoas que correm e está sempre a correr com elas em cada paragem em que insistentemente pára. No comboio. Toda a gente olha para toda a gente sem querer olhar para ninguém. Há gente que não olha para gente nenhuma mas olha para lá da janela, mas como ainda está escuro e pouco se vê dela, essa gente também olha para a gente, porque a gente está reflectida nessa janela. É um caralho é o que é. Algumas vezes são aquelas em que me coloco a pensar como há tanta dificuldade em pessoas em se darem com pessoas, e pessoas a ignorarem pessoas, e ignorantes a ignorarem que ignoram, porque no fundo e à superfície e à frente a atrás e acima e abaixo, esquerda e direita, somos todos iguais. Algumas vezes, também, penso em como as pessoas pensam em preocupações que não as deixam pensar e, assim pensando, penso que não se conseguem conhecer ou dar-se a conhecer ou conhecer que se conheçam. crio mundos imaginários imaginando se conhecesse aquela pessoa que não conheço que me não conhece. porque eu acho muito estranho existir tanto coração solitário quando somos tantas pessoas aqui nesta coisa a que se chama Terra. O comboio pára na minha estação e corre comigo. Nunca percebo porque deixo sempre as pessoas passarem à minha frente. Sou um gajo tão pacífico que me enervo insistentemente com isso. O que é um paradoxo perturbável. Enquanto me barram o caminho, medito em como sou o tipo mais idiota que conheço. E, como todos os idiotas, nunca me apercebo disso. Se o sentido da vida é para a frente, mas há sempre esquerdas e direitas, e pessoas que andam para trás, onde está a civilidade desta civilização que quer entrar e sair do comboio ao mesmo tempo quando tal é básica e visivelmente impossível de se concretizar? Já podia ter chegado ao meu local de destino se me tivesse destinado a prosseguir e não deixar as pessoas passarem à minha pala. Todos os dias me surpreendo com a minha estupidez. O que nem é imeritório, demonstra como sou um gajo cheio de capacidade. Na faculdade. As empregadas da limpeza nunca colocam sabonete no WC masculino, então, eu faço as minhas necessidades básicas, vou ao WC feminino buscar sabonete, volto ao WC masculino para me lavar, e elas lançam-me um olhar em como não gostam desta minha atitude. Coloco-me a pensar, então, porque raio não existem empregados de limpeza. Ou hospedeiros de bordo. Ou dançarinos de ballet. A guerra dos sexos é uma batalha muito longa, rebelem-se homens! Na aula. Pergunto à jovem bonita atrás de mim se já possui a antologia daquela cadeira. Ela diz que não com um sorriso e eu sorrio também. Da próxima convido-te para o almoço, agora estou ocupado a pensar nas despesas que terei de fazer enquanto passo notas sobre o povo Micénico e a civilização grega no meu caderno cor-de-rosa. Escrevo que nem um louco feito parvo. O meu caderno parece que teve um desastre de automóvel enquanto conduzia bêbado; a  minha caligrafia é disforme. Apetece-me uma bebida. Não posso pensar em beber se não fico com sede. Ou será que fiquei com sede e só depois é que pensei em beber? Não sei, a mente humana é difícil, mas eu preciso de algo líquido. A aula acaba. Vou ao bar e bebo uma bebida. A coisita passa por mim e eu saúdo-a, ela ri-se, eu rio-me. Não sei porque raio me rio sempre quando saúdo as pessoas. Não sei porque raio não passo de saudar as pessoas. Saúdo tanta pessoa e dou-me com tão pouca. Saúde!, vai um gole. Tenho de me despachar que vou ter aula a seguir. Casa. Entrar às oito da manhã e sair às oito da noite e chegar a casa às dez menos um quarto é uma sina que se desculpa com objectivos de vida ainda por engendrar. Há sempre qualquer coisa que surge que desculpe algum inconveniente na tomada destas decisões que nos sugam a  vida e nos criam vida também. Acredito que tirar uma licenciatura é mais um estilo de vida que uma licenciatura. Aquela instituição já é uma segunda casa segundo o meu sexto sentido. E enquanto penso nisso vou dormir. Tenho sempre dificuldade em dormir. Olho para o tecto escuro e consigo discernir as suas formas. Começo a pensar. Até quando será possível conhecer verdadeiramente uma pessoa? Revolto-me na cama de um lado para o outro contra um exército de responsabilidades futuras de um amanhã por florescer. Acendo a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira. Abro o meu livro de rascunhos e pego numa caneta. 'e depois, há aqueles dias diferentes em que acordamos a pensar que os dias vão ser todos iguais.' Olho para o relógio e é já amanhã. Foda-se...