12/05/11

Divagações 8: E os manetas sobem a vida a pulso

Confesso que, desde muito novo, tenho o pressentimento de vir a ter uma morte terrível. Do tipo de sentir uma dor enorme no peito numa linha de comboio e de ter um ataque cardíaco e ser abalroado ao mesmo tempo. Há dias em que esse sentimento me domina. É por demais evidente que o facto de ter começado a visualizar filmes para +18 por volta dos meus quinze anos e de, o ano passado, ter visualizado seis filmes da saga Saw numa só tarde, tem uma influência abominante nestes meus pensamentos sádicos. Depois, há outros dias em que me sinto menos bem com a vida. Nesses dias, tento encontrar a minha individualidade, algo que me destaque deste mundo cheio de pessoas e me faça ter razões para viver. Então, partilho essas minhas descobertas com um amigo, e o meu amigo confessa que também se sente assim, ou que também se acha assim, ou que também se vê assim, no mesmo quadro que o meu, e eu sinto a minha individualidade ir pelo cano abaixo e digo Foda-se e deprimo-me. Depois, há aqueles dias em que me apetece esfaquear alguém, porque descubro que fui tema de conversa entre pessoas, e coisa que detesto é isso, falarem de mim nas minhas costas e demorarem a tratar de assuntos que a mim me dizem respeito comigo. Aí, nasce-me um clima de insegurança, porque há dias em que não me sei comportar, nem sei o que fazer, com receio que alguém me veja a comportar ou a fazer e que diga a alguém que me viu a comportar ou a fazer. Odeio ser tema de conversa. Depois, há dias em que não sinto o tempo passar por mim. Faço a minha vida calmamente, falo com pessoas que falam comigo e porque é assim a comunicação e se as pessoas não falassem comigo seria um monólogo e coisa que eu não sou é maluco o suficiente para me pôr a falar sozinho, relaxado e descontraído. Nesses dias, se alguém me chateia, faço zapping e nem dou a mínima atenção. Depois, há dias em que releio textos antigos meus e dou comigo a pensar que sou uma pessoa deveras estranha e o que aconteceria se começasse a tomar drogas alucinogénas. Claro que isso acontece em casos de extrema raridade quando, por exemplo, tenho pouco de fazer, ou quando vejo filmes tipo a 'Milha Verde', ou o '21 Gramas', ou algo em que entre o Tom Hanks, e fico logo comovido e depois pego em álbuns de fotos antigas e começo a presumir como o tempo é uma coisa lixada. Depois, há ainda dias em que, por alguma razão satisfatória, sinto a minha cabeça tão limpa de infortúnios, que me agarro a uma vida entediante de leituras, e leio o 'Pânico' do Jeff Abbott em duas noites. Nessas alturas, em que termino os livros, é tal o meu relaxamento que a história da obra passa num flash na minha cabeça como se fosse a minha vida e eu estivesse a morrer: é uma das melhores sensações que já experimentei. Depois, há dias, como hoje, em que procuro racionalizar todos estes intervalos da minha vida e acho que não chego a velho com um índice satisfatório de racionalidade.