12/06/14

Banhando-me de sorrisos sanguinários.

A lua desce ao teu encontro e afoga-se no rio,
tens os olhos a jorrar sorrisos e palavras em que me conforto no melhor dos copos transbordados de filipas. Há toda uma quantidade de prendas entrelaçadas, ocupadas em variadíssimos formatos de papel, à minha volta; e, quando as abro, na inocência da espera de algo doce (como o levantar da saia da menina do prédio da frente, em dias ventosos), saltam pontapés e diálogos desconhecidos no batuque da expressão facial que se abre da extremidade esquerda até à extremidade direita da boca.

Enrolado no sofá a beber xícaras de café, debato-me com duas questões: será que o comprimento do meu dedo grande do pé esquerdo é perfeitamente idêntico ao comprimento do meu dedo grande do pé direito? e o que haverá debaixo de um sonho? - neste momento, em que crio a ilusão de aquecer meu corpo do líquido ardente, dissipam-se-me tais preocupações e começo a pensar que talvez os meus lábios ganhem um ferimento proveniente da quentura extrema outrora protagonizada pelo café. Não sei até onde irá esta minha preocupação, pois sou um gajo muito distante de manter uma linha de raciocínio indeterminadamente, e já me caiem filipas pelos pés, todas as minhas unhas crescem agora regadas de filipas como se fossem sóis ou rissóis elaborados com a mais suave imprevisibilidade, banhados de sorrisos sanguinários.

a minha meta é uma linha queixosa de vencedores, mas que, ao mesmo tempo, se encontra sempre a cochichar com as bancadas, e torna-se difícil manter uma certa dose de seriedade em alcançar um destino quando ele não te leva a sério e, na pior das hipóteses, talvez entre os cochichos lance uma ou outra farpa em relação a ti. por vezes, em momentos semelhantes, o melhor talvez seja procurar outra solução. e, na ausência de soluções, voltarmos a debater se realmente o nosso dedo grande do pé esquerdo cheira melhor ou pior em relação ao dedo grande do nosso pé direito, e porque é que ainda ninguém veio limpar este chão afogado de filipas, com abraços, com cabelos despenteados de energias dançantes, ou declamações viajantes, mas não tragam uma esfregona. não queiramos voltar ao mundo da realidade, quando tão bem alcançamos o sossego que nos torna cativos quando estamos juntos sem pensar sequer na presença um do outro.