Um sítio / Para Fábrica de Letras

O desafio deste mês, da Fábrica de Letras, centra-se na demarcação de um objecto que guardamos religiosamente, alguém que amamos pelas mais variadas razões, um local que nunca esquecemos, seja numa viagem ou na infância, ou um acontecimento específico que nos tenha marcado. O Otário escolheu a 3ª temática. 

Este é o corredor da designada Rua Sésamo, local destinado à compra de edições Tv Guia Editora, onde, na minha criancice, minha mãe gastava as suas posses monetárias, a fim de me adquirir as mais recentes obras do Poupas, do Ferrão, do Gualter e companhia.Em frente, havia acesso ao parque da cidade, onde, eu, guardo a recordação de meu rabo queimado na chapa do escorrega, num dia imenso de calor; estima-se, e resguarda-se para a posterioridade, a história da minha choradeira derivada, só possível de comprovar pelo testemunho de meu pai como única presença familiar na ocasião. A lado do parque, recorde-se o campo de futebol onde eu brinquei pela antiga escola Básica. Tal corredor, outrora repleto de gente, daria entrada às demais lojas variadas, das quais me relembro, a qual me já referi, a da senhora das costuras onde minha mãe me comprava meias e cuecas, a da senhora do pão onde minha mãe me comprava Bollycaos, a do casal velhinho que me oferecia rebuçados e onde minha mãe me comprava amêndoas, a do café matutino com a companhia de Dona de Putchie onde minha mãe me comprava um Mil-Folhas, a da senhora simpática vendedora de bugigangas onde minha mãe me comprava livros de histórias infantis, a da loja de berlindes onde minha mãe me comprava berlindes. Hoje, o corredor mantêm-se, porém, não há mais senhora da Rua Sésamo, nem senhora das costuras, nem senhora do pão, nem casal velhinho, nem café matutino, nem senhora simpática, nem loja de berlindes; já não gosto de usar cuecas, já não gosto de comer Bollycaos, já não aprecio rebuçados, já cá não reside a Dona de Putchie, já não leio histórias infantis, já não sei jogar ao berlinde. O parque já não tem o escorrega, o campo já tem balizas. As lojas deram lugar a escritórios, os cafés deram lugar a escritórios. Resta somente este corredor, para me relembrar, que, antigamente, aqui existiu movimento, e era aqui o centro de tudo.

|The Specials - Ghost Town| *

Comentários

El Matador disse…
O Poupas por esta altura já foi detido por suspeita de pedofilia.
Miss Murder disse…
Que bonito. Há tantos sítios que para mim são especiais, nunca fiz nenhum desafio da fabrica de letras, aliás nem sei como isso funciona!
mythic disse…
realmente , evocando um grande camelo mario lino(porque lhe chamo isto?porque ofendeu a minha terra dizendo publicamente que a margem sul era um deserto para camelos), portugal esta ficar um deserto, ja pararam um pouco em um local qualquer e ficaram a penas a ouvir? façam isso agora , vão a janela e ouçam os ruídos da rua, já não se ouve quase nada , nos centros comerciais aonde outrora era tipo uma peixaria que não se ouvia nada agora esta tudo silencioso , parece que as pessoas com a "crise" perderam também a vontade de falar , já estão mais pra zoombies que para vivinhos da silva ,a pouco visitei a minha zona de infância , existem as ruínas de um parque de brincar , quase tudo desapareceu e grande partes das lojas sumiu , sera que a modernização foi boa??? já agora otario também to com saudades dos mil-folhas, pasteis de nata e de comprar bolas de berlim na praia.
Otário disse…
El Matador, eu vi uma sátira em que ele sucumbia com a gripe aviária...

Miss Murder, é fácil, barato, só não dá milhões, mas podes crer que é prazeroso... visita a Fábrica e saberás como participar, saudações!

Mythic, sim, creio acordar (de acordo!) com tudo o que escreves. Bola de Berlim na praia sempre preferi não experimentar, não me tende para o saudável.
B disse…
Caro Otário,
que linda participação!
Em todo o lado e na memória de todos nós há um sítio assim, que já deixou de existir no mundo real. A diferença é que, em vez de mil-folhas, a minha mãe dava-me bolos de arroz...
Isactamente disse…
Esse sítio conheço eu bem! Havia lá um banquinho onde tatuei as iniciais dos nomes dos meus melhores amigos do 5 º ano. Belos tempos.

Entretanto, encontrei este site, e é viciante!

http://9gag.com/

Está sempre a ser actualizado e tem lá coisas muito giras para veres.

Abraço

Isac
Ritinha disse…
A infância é melhor época das nossas vidas... é tudo tão simples *.*

E as recordações são quase todas óptimas :D
Johnny disse…
O mundo vai mudando à medida que crescemos e, com ele, o seu centro. Parece um espaço completo para ser um bom centro do mundo para qualquer pessoa.
Otário disse…
Abraço Isac, contente com o teu comentário, saudações meu caro amigo!
M. disse…
Estamos todos a ficar velhos e marretas? Resmungões?

Não gosto da expressaõ "no meu tempo é que era bom" ou "antigamente, no meu tempo"...

Ontem como hoje, havia coisas boas e merdas.

Claro que muita da nossa infância desapareceu. E muito dela vive em nós em tons cor-de-rosa. Como um engano.

Há espaço para tudos e todos...

Não vou resmungar mais....
Otário disse…
eu não resmungo, 'deito cá pra fora' ;)

Ho, que lindos textos, que poético, que lindo!